Recent Updates Toggle Comment Threads | Keyboard Shortcuts

  • Matt Perman 10:59 pm on April 15, 2013 Permalink
    Tags:   

    Qual é o papel de um presbítero? 

    De acordo com o Novo Testamento, os presbíteros são responsáveis pela liderança e supervisão de uma igreja local. A função e o papel de um presbítero é bem resumida por Alexander Strauch em seu livro Biblical Eldership: “Os presbíteros lideram a igreja [1Tm 5.17; Tito 1.7; 1 Pedro 5.1-2], ensinam e pregam a Palavra [1 Timóteo 3.2; 2 Timóteo 4.2; Tito 1.9], protegem a igreja de falsos mestres [Atos 20.17, 28-31], exortam e admoestam os santos na sã doutrina [1 Timóteo 4.13; 2 Timóteo 3.13-17; Tito 1.9], visitam e oram pelos doentes [Tiago 5.14; Atos 20.35], e julgam questões doutrinárias [Atos 15.16]. Em terminologia bíblica, presbíteros pastoreiam, supervisionam, lideram e cuidam da igreja local” (16).

    “Presbítero” e “pastor” não são dois ofícios diferentes. Como John Piper argumenta na seção cinco do livreto “Biblical Eldership”, essas são simplesmente duas palavras diferentes para o mesmo ofício. Ele dá três razões. Primeiro, em Atos 20.28, os presbíteros são encorajados nos deveres “pastorais” de supervisionar e pastorear. Segundo, em 1 Pedro 5.1-2, os presbíteros são exortados a “pastorear” o rebanho de Deus que está aos cuidados deles, papel que é de um pastor. Terceiro, em Efésios 4.11, a única vez que a palavra pastor ocorre no Novo Testamento, os pastores são tratados como pertencendo ao mesmo grupo dos mestres. Isso sugere que o papel principal do pastor é alimentar o rebanho por meio do ensino, que é um dos papeis principais dos presbíteros (Tito 1.9). Dessa forma, o Novo Testamento parece indicar que “pastor” é outro nome para “presbítero”. Um presbítero é um pastor, e um pastor é um presbítero.

    Alguns pensam que a Bíblia fala de uma categoria de líderes eclesiásticos acima de pastores/presbíteros, chamados “bispos”. Contudo, a evidência bíblica indica que “bispo” é simplesmente outro termo para presbítero também. Paulo se refere aos presbíteros em Éfeso como “bispos” em seu sermão de despedida de Atos 20.17-35. Da mesma forma, “bispo” em Tito 1.7 parece ser um sinônimo para o termo “presbítero” usado no versículo 5. A maioria dos estudiosos reconhece isso, como J. B. Lightfoot já observou no século 19: “É um fato agora em geral reconhecido por teólogos de todas as matizes de opinião, que na linguagem do Novo Testamento o mesmo ofício na Igreja é chamado indiferentemente de ‘bispo [supervisor]’ (episkopos) e ‘ancião’ ou ‘presbítero’ (presbyteros)” (citado em Strauch, 180).

    John Piper resume o uso dos termos “presbítero”, “pastor” e “supervisor”:

    [quote]

    O Novo Testamento refere-se somente uma vez ao ofício de pastor (Efésios 4.11). É uma descrição funcional do papel do presbítero enfatizando o cuidado e a nutrição da igreja como rebanho de Deus; assim com “bispo/supervisor” é uma descrição funcional do papel do presbítero enfatizando o governo ou supervisão da igreja. Podemos concluir, portanto, que “pastor” e “presbítero” e “bispo/supervisor” referem-se ao mesmo ofício no Novo Testamento. Esse ofício permanece ao lado de “diácono” em Filipenses 1.1 e Timóteo 3.1-13 de tal forma a mostrar que os dois ofícios permanentes instituídos pelo Novo Testamento são presbítero e diácono.

    [/quote]

    [divider]

    Fonte: Desiring God

    Tradução: Felipe Sabino de Araújo Neto (abril/2013)

     
  • Uri Brito 7:48 pm on March 16, 2013 Permalink
    Tags: , pais,   

    O Pai Trinitariano 

    Fui convidado pelo Pastor Mickey Schnider para me unir aos pastores Gregg Strawbridge e Rich Lusk na tarefa de proferir algumas palestras sobre o assunto Liderança na Igreja e Família, na 22ª Conferência do Progresso da Família em Sandestin, Flórida. O assunto surgiu quando eu estava meditando sobre esses temas, especificamente sobre o papel que os pais desempenham em equipar filhos (especialmente filhos homens) para manter uma visão robusta do evangelho após deixarem o lar. Com as estatísticas assustadoras afirmando o que todos sabemos — a saber, que jovens, homens e mulheres, estão abandonando a fé em grande escala após deixarem a casa dos pais — tornou-se claro para mim que eu deveria adicionar meus pensamentos e observações sobre esse fenômeno lamentável. Esta palestra não tenta lidar com algo extremamente novo, mas talvez eu tenha conseguido estabelecer — de uma forma sucinta — uma estrutura pela qual podemos começar a analisar e responder a essa cultura órfã. Paternidade não é uma tarefa fácil. É uma responsabilidade titânica, e os homens deveriam considerar essa responsabilidade à luz da sabedoria que a Bíblia nos dá.

    Ao longo das últimas décadas, a indústria de livros tem sido inundada com livros sobre a Trindade. Isso tem oferecido a teólogos e pastores a oportunidade de considerar a Trindade não apenas como um dogma sistemático a ser crido, mas também como um modelo para todos os cristãos viverem nesta cultura.

    Com isso em mente, proponho oferecer somente uma breve apologética do porquê as relações trinitarianas são importantes quando estamos considerando a paternidade, e porquê pais pactuais deveriam olhar profundamente para Deus o Pai e sua eterna relação com o Filho como o paradgima primário deles.

    S. Paulo nos exorta a criar os nossos filhos na admoestação do Senhor. Essa criação às vezes é sufocada pela falta de atenção dos pais aos seus deveres bíblicos. Quiçá, se o nosso Deus Triúno nos der graça, seremos capazes de ver em nossas vidas pais firmemente dedicados em suas tarefas trinitarianas de criar homens para serem reis vivendo em submissão ao Rei dos Reis, nosso bendito Senhor Jesus Cristo.

    [divider]

    Fonte: Introdução do livreto The Trinitarian Father.

     
  • Santo Agostinho 10:02 am on March 15, 2013 Permalink
    Tags: Agostinho, ,   

    Propriedades das duas Cidades ― a Terrestre e a Celeste 

     

    Dois amores fizeram as duas cidades: o amor de si até ao desprezo de Deus ― a terrestre; o amor de Deus até ao desprezo de si ― a celeste.

    Aquela glorifica-se em si própria ― esta no Senhor;

    aquela solicita dos homens a glória ― a maior glória desta consiste em ter Deus como testemunha da sua consciência;

    aquela na sua glória levanta a cabeça ― esta diz ao seu Deus:

                Tu és minha glória, tu levantas a minha cabeça;

    aquela nos seus príncipes ou nações que subjuga, e dominada pela paixão de dominar ― nesta servem mutuamente na caridade: os chefes dirigindo, os súbditos obedecendo;

    aquela ama a sua própria força nos seus potentados ― esta diz ao seu Deus:

                Amar-te-ei, Senhor, minha fortaleza;

    por isso, naquela, os sábios vivem como ao homem apraz ao procurarem os bens do corpo, ou da alma, ou dos dois: e os que puderam conhecer a Deus

    não o glorificaram como Deus, nem lhe prestaram graças, mas perderam-se nos seus vãos pensamentos e obscureceram o seu coração insensato. Gabaram-se de serem sábios, (isto é, exaltando-se na sua sabedoria sob o império do orgulho)

    tornaram-se loucos ― e substituíram a glória de Deus incorruptível por imagens representando o homem corruptível, aves, quadrúpedes e serpentes.

    (porque à adoração de tais ídolos conduziram os povos ou nisso os seguiram)

    e veneraram e prestaram culto a criaturas em vez de ao Criador que é bendito para sempre,

    ― mas nesta só há uma sabedoria no homem: a piedade que presta ao verdadeiro Deus o culto que lhe é devido e que espera, como recompensa na sociedade dos santos (tanto dos homens como dos anjos),

    que Deus seja tudo em todos.

    [divider]

    Fonte: Santo Agostinho, A Cidade de Deus, Vol. II (Edição da Fundação Calouste Gulberkian, abril 1993; tradução de J. Dias Pereira), p. 1319-1320.

     
  • Michael Kimmitt 9:52 pm on January 28, 2013 Permalink
    Tags: , , ,   

    Fé e arrependimento antes do batismo? 

    [box_dark]Objeção: A Escritura requer fé e arrependimento antes do batismo[/box_dark]

    O argumento é, sem dúvida, o seguinte: como os infantes são incapazes de exercer tanto fé como arrependimento, eles não são sujeitos apropriados do batismo. Mas entendamos um pouco mais o argumento e vejamos que se trata de um sofisma. O que está na verdade implícito é o seguinte:

    A Escritura requer fé e arrependimento de adultos para o batismo; mas como os infantes não podem exercer nenhum dos dois, eles não podem ser batizados. A falácia reside no fato que a premissa é sobre adultos, mas a conclusão é sobre infantes.

    Isso ficará ainda mais claro analisando uma passagem da Escritura: “Quem crer e for batizado será salvo; quem, porém, não crer será condenado” (Mt 16.16). Dessa forma temos o seguinte: a Escritura requer fé e batismo de adultos para que sejam salvos; mas como os infantes não podem exercer essas coisas, eles serão condenados.

    Novamente: “Se alguém não quer trabalhar, também não coma” (2Ts 3.10). Dessa forma temos o seguinte: a Escritura requer que os adultos trabalhem para que possam comer; mas como os infantes não podem trabalhar, eles não podem comer!

    O sofisma, um argumento capcioso mas falacioso, sem dúvida ficou claro agora. Não cremos que todos os infantes estão condenados, nem cremos que eles não devam comer. O equívoco deriva-se simplesmente de aplicar aos infantes o que foi destinado aos adultos ― e claramente então esse argumento sobre o batismo cai por terra também.

    [divider]

    Fonte: Michael Kimmitt, Baptism: Meaning, Mode and Subjects, p. 44-45.

    Tradução: Felipe Sabino de Araújo Neto ― janeiro/2012.

     
  • Francis Schaeffer 8:58 pm on January 25, 2013 Permalink
    Tags: ,   

    A Prática da Verdade 

    No que diz respeito ao primeiro dos princípios sobre os quais falamos no início do Apêndice B, “a completa posição doutrinária do cristianismo histórico deve ser claramente mantida”, parece-me que o problema central da ortodoxia evangélica na metade do séc. XX é o problema da prática deste princípio. Isso é desta forma especialmente quando nós levamos em conta a mentalidade espiritual e intelectual que é dominante em nosso século (1). Qualquer consideração sobre métodos ou programas deve ser secundária para uma reflexão desse problema central.

    Se uma ênfase clara e inequívoca na verdade, no sentido de antítese (2), é removida, duas coisas ocorrem: Primeiramente, o Cristianismo como Cristianismo na próxima geração é enfraquecido; e segundo, nós estaremos nos comunicando apenas com a aquela parte que está diminuindo na comunidade que ainda pensa em termos do antigo conceito de verdade (3). Nós não estamos minimizando a obra do Espírito Santo. Nós deveríamos nos lembrar, no entanto, que nossa responsabilidade é que nos comuniquemos de tal forma que aqueles que ouvem o evangelho possam entendê-lo. Se nós não nos comunicarmos claramente na base de antítise, muitos irão reagir às suas próprias interpretações do evangelho, nas suas próprias formas relativistas de pensamento, incluindo um conceito de sentimento de culpa psicológico ao invés da verdadeira culpa moral diante do santo, Deus vivo. Se eles responderem desta forma, não entenderam o evangelho; ainda estão perdidos e nós falhamos em nossa tarefa de pregar e comunicar o evangelho à nossa geração.

    A unidade do Cristianismo ortodoxo ou evangélico deveria ser centrada nesta ênfase da verdade. Sempre isto é importante, mas é duplamente importante quando somos cercados por aqueles para quem a verdade, no sentido de antítese, é considerada como totalmente impensável.

    Em tal cenário o problema da comunicação é sério; isto pode ser superado apenas por declarações negativas que esclarecem o que nós não queremos dizer, para que o homem do séc. XX entenda as declarações positivas do que queremos dizer. Além do mais, em uma era de síntese (4), os homens não levarão a sério nossos protestos sobre a verdade a menos que eles vejam, pelas nossas ações, que praticamos essa verdade e antítese na unidade que tentamos estabelecer e em nossas atividades. Sem isso, em uma era de relatividade, nós não podemos esperar que a Igreja ortodoxa e envangélica signifique muito para a cultura ao redor ou até mesmo para os filhos da própria Igreja. O que tentamos dizer em nosso ensinamento e evangelismo será entendido em um pensamento em forma de síntese presente no séc. XX. Tanto uma clara compreensão da importância da verdade quanto uma prática dela, mesmo quando custa muito para se fazer isso, é imperativa se queremos que nosso testemunho e evangelismo sejam significantes em nossa geração e no fluxo da história.

    Me parece que alguns evangélicos estão abandonando qualquer tentativa séria de expor a verdade e antítese. Tem havido uma tendência de se mover de uma falta de seriedade eclesiasticamente concernente a verdade para esta mesma tendência em assuntos de cooperação mais ampla. Isso geralmente resulta na negação, na prática se não em teoria, da importância da verdade doutrinária como tal.

    Muito evangélicos que estão corretamente incomodados com a visão da Escritura e universalismo da nova teologia e que nestes pontos de erro tentam encará-la de fato nunca vão longe o suficiente para estabelecer uma linha clara de verdade e erro que será relevante para a próxima geração. Inevitavelmente a próxima geração tende a ir mais longe na direção já estabelecida e, se esta direção já esta em direção a síntese, eles irão com isto ainda mais perto em direção a nova teologia. Portanto, para evitarmos isso, nós devemos ser cuidadosos em considerar que verdade e antítese significam na prática a assuntos eclesiásticos e no evangelismo.

    Assim deve ser dito que a despeito do – e ainda devido ao – comprometimento de alguém ao evangelismo e a cooperação dentre os cristãos, eu posso visualizar ocasiões onde a única forma de deixar claro a seriedade do que está envolvido – no que diz respeito a um culto ou a uma atividade onde o evangelho será pregado – é não tomar parte oficial quando homens, cuja doutrina é conhecida como sendo inimiga, serão convidados para participar oficialmente.

    Em uma era de relatividade, a prática da verdade, quando esta custa muito, é a única forma de fazer o mundo levar a sério os nossos protestos concernentes a verdade. Cooperação e unidade que não levam à pureza de vida e de doutrina são tão defeituosas e incompletas como uma ortodoxia que não leva a uma preocupação e a uma atitude em relação aos que estão perdidos.

    Há um perigo oposto a ser evitado. Alguns daqueles que tem lutado pela verdade têm prejudicado a mesma, não apenas pela perca de beleza e amor, mas ainda na prática pela perca da verdade enquanto falam sobre os homens.

    Muitas vezes a única antítese que exibimos para o mundo e para as nossas próprias crianças é nosso discurso sobre santidade ou o nosso discurso sobre amor, ao invés da prática da santidade e do amor juntos como verdade, em antítese ao que é falso na teologia, na Igreja a na cultura ao nosso redor (5).

    [divider]

    NOTAS:

    (1). Mentalidade que vê a verdade não como fixa ou apenas uma, mas como múltipla e sempre variando, de forma que a verdade por mim acreditada não precisa ser a mesma para outra pessoa. Para estes, só porque algo é verdeiro não quer dizer que o oposto disso também não possa ser.

    (2). Antítese, em seu conceito geral, é a idéia oposta a tese – outra idéia. Por exemplo, a antítese de bondade é maldade, a de imprudência é prudência. Neste contexto, a ênfase “clara e inequívoca […], no sentido de antítese” significa uma exposição da única verdade que é clara ao mostrar que tudo oposto a esta verdade é errado.

    (3). O antigo conceito de verdade a concebia como absoluta e fixa. Portanto, se algo era tido como verdade, o oposto daquilo seria obviamente falso.

    (4). Para Schaeffer, síntese é estritamente a resolução de duas opniões diferentes em uma resposta da forma “tanto isso quanto aquilo”, sendo “isso” e “aquilo” idéias opostas. Neste sentido estrito, síntese seria uma sinônimo de resposta relativista (Conferir o livro “A Morte da Razão” de Francis Schaeffer, páginas 40, 41. Editora Fiel).

    (5). Baseado em uma palestra dada no Congresso sobre a Bíblia em Berlim.

    [divider]

    Tradução: David Cecilio – http://www.firelandmissions.com/

    Fonte: Complete Works of Francis Schaeffer, Vol. 01 – Pág 195-197.

     
  • Cornelius Van Til 8:34 pm on January 25, 2013 Permalink
    Tags: , ,   

    Uma Introdução à Teologia Sistemática 

    A Ideia da Teologia Sistemática

    Nossa preocupação nesta obra é com a teologia da maneira que é entendida no Cristianismo pelo crente ortodoxo. A visão ortodoxa do Cristianismo encontra sua expressão mais consistente na fé reformada. A pressuposição do Deus antecedente e autossuficiente e sua infalível revelação de si mesmo ao homem na Bíblia é fundamental a tudo que é ortodoxo. A teologia sistemática busca oferecer uma apresentação ordenada do que a Bíblia ensina sobre Deus.

    Teologia, portanto, não deve ser definida como a ciência da religião. É verdade que muitas vezes é definida assim até mesmo por teólogos reformados. A.A. Hodge escreveu: “Teologia, em seu sentido mais amplo, é a ciência da religião”. Todavia, considerando o que o termo religião veio a significar em tempos modernos, seria infeliz confundir a teologia moderna não cristã com a teologia ortodoxa ao falar da teologia como a ciência da religião. Religião, segundo definições modernas (por exemplo, na literatura ligada a “psicologia da religião”), não tem qualquer relação com o Deus das Escrituras. Os homens dizem que conseguem obter melhor o “testemunho nativo” da religião quando deixam a questão da referência objetiva completamente de fora. Mas como o Cristianismo alega ser a verdadeira religião, segue-se que nela a referência objetiva é de importância primordial. É sobre o Deus das Escrituras que queremos obter informação.

    Isso não significa que queremos obter informação somente sobre Deus. Significa que é primariamente sobre Deus que nós falamos. Queremos saber tudo o que Deus deseja que saibamos sobre qualquer coisa. A Bíblia tem muito a dizer sobre o universo. Mas é a ciência e a filosofia que lidam com essa revelação. Indiretamente até mesmo a ciência e a filosofia devem ser teológicas. As Escrituras também são cheias de informação sobre nossa salvação e sobre muitas coisas que nos diz respeito. Tudo o que as Escrituras dizem sobre o homem e particularmente tudo que dizem sobre a salvação do homem é em todo caso para a glória de Deus. Nossa teologia deve ser centrada em Deus porque toda nossa vida deve ser centrada em Deus.

    Da mesma forma, há muito nas Escrituras sobre Cristo. Depois da entrada do pecado no mundo, Cristo é o único meio pelo qual Deus pode ser conhecido. Ele não é simplesmente o meio pelo qual podemos conhecer mais sobre o Pai em contraste com outras maneiras que pode ser conhecido. É por ele somente que podemos ir ao Pai. Além disso, Cristo é Deus então conhecê-lo é equivalente a conhecer o Pai. Apesar de tudo isso, é preciso reconhecer que a obra de Cristo é o meio para um fim. Mesmo quando pensamos no fato de que Cristo é a segunda pessoa da Trindade, precisamos ainda assim lembrar que é com a completa Divindade que nos relacionamos e, em ultima análise, queremos obter informação. Assim, a teologia é primariamente centrada em Deus e não simplesmente centrada em Cristo.

    É bom chamar a atenção para a relação entre a teologia sistemática e as outras disciplinas teológicas. O nome teologia sistemática não sugere que as outras disciplinas teológicas não façam seu trabalho sistematicamente. Significa que é somente a teologia sistemática que busca oferecer a verdade sobre Deus conforme revelada na Escritura como um todo, como um sistema unificado.

    exegese analisa cada parte das Escrituras detalhadamente. A teologia bíblicaorganiza o fruto da exegese em varias unidades e traça a revelação de Deus na Escritura em seu desenvolvimento histórico. Expõe a teologia de cada parte da Palavra de Deus, conforme ela chegou até nós em diferentes estágios, por meio dos diferentes autores. A teologia sistemática usa os frutos do trabalho da teologia bíblica e exegética e une tudo em um sistema concatenado. Aapologética busca defender este sistema de verdade bíblica contra a falsa filosofia e a falsa ciência. A teologia prática busca demonstrar como pregar e como ensinar este sistema de verdades bíblicas. A história eclesiástica traça a recepção deste sistema de verdade no decorrer dos séculos.

    Quanto à questão da enciclopédia teológica, há muitos debates entre teólogos reformados. Aqui só trataremos de um ponto deste debate: a relação entre a teologia sistemática e a apologética. Quanto a isso, o Dr. Benjamim Warfield, e com ele a “escola Princeton” de teologia, difere do Dr. Abraham Kuyper, do Dr. Herman Bavinck e da “escola Holandesa” de teologia.

    A diferença principal está na natureza da apologética. Warfield diz que a apologética como disciplina teológica precisa estabelecer as pressuposições para a teologia sistemática, como a existência de Deus, a natureza religiosa do homem e a verdade da revelação histórica de Deus conforme ele nos deu nas Escrituras. Em contraste a isso, Kuyper diz que a apologética deve buscar somente defender aquilo que lhe é dado na teologia sistemática. Warfield argumenta que se fossemos seguir o método de Kuyper, nós estaríamos primeiro explicando o sistema cristão pra depois nos perguntarmos se porventura nós estávamos lidando com fatos ou com fantasia. Kuyper argumenta que se nós permitirmos que a apologética estabeleça as pressuposições da teologia, nós estamos praticamente atribuindo ao homem natural a capacidade de compreender a verdade do Cristianismo e com isso teríamos negado a doutrina da total depravação.

    Não podemos nem precisamos entrar nos detalhes deste debate. A essência da posição de Kuyper, de que precisamos sempre nos lembrar da distinção entre a mente regenerada e a mente não regenerada, não precisa significar que a apologética tem que sempre vir depois da teologia sistemática e ser sempre negativa. Apologética pode muito bem vir primeiro e pressupor o sistema geral da verdade conforme a exposição da teologia sistemática. É verdade que a melhor apologética só pode acontecer quando o sistema da verdade é bem compreendido. Mas também é verdade que o sistema da verdade não é bem compreendido até que seja analisado como em oposição a um erro. O desenvolvimento da teologia sistemática aconteceu, em grande escala, pela oposição ao erro. Portanto, as duas disciplinas são interdependentes.

    Por outro lado, acreditamos que a essência da posição de Kuyper em relação à Warfield é correta. Warfield frequentemente fala como se a apologética precisa usar um método de abordagem ao homem natural que as outras disciplinas não precisam nem podem usar. Ele raciocina como se a apologética possa estabelecer a verdade do Cristianismo como um todo por um método diferente das outras disciplinas porque é somente a apologética que não pressupõe Deus. É como se as outras disciplinas tivessem que esperar até que a apologética tenha terminado seu trabalho para dela receber os fatos da existência de Deus, etc. Acreditamos que esta distinção entre o método da apologética e o método das demais disciplinas é errada. Todas as disciplinas precisam pressupor Deus, mas, ao mesmo tempo, a pressuposição é a melhor prova. A apologética toma as dores pra demostrar que este é o caso. Este é seu objetivo principal. Mas ao fazer isso, a apologética não é neutra da mesma forma que as outras disciplinas não são. Um de seus principais objetivos é demonstrar que a neutralidade é impossível e que ninguém, na realidade, é neutro. Concluímos então que a apologética se posiciona na beirada do circulo da verdade sistemática que nos é dada pela teologia sistemática, com o objetivo de defendê-la.

    Alguns teólogos preferem o termo teologia dogmática, enquanto outros preferem falar em teologia sistemática. Não é uma questão de grande importância. Alguns preferirem o termo dogmática porque parece expressar melhor a ideia de que nesta disciplina estamos lidando com os dogmas ou verdades da Igreja. Isso levanta a questão da relação entre a teologia sistemática e as confissões da Igreja. A teologia sistemática lida primariamente com estas confissões? Ou devemos dizer que a teologia sistemática lida primariamente com os dogmas ou verdades da Escritura? Basicamente, todos os principais teólogos reformados concordam que os dogmas da Igreja são derivados das Escrituras. Assim, é verdade que em ultima instância, a teologia sistemática busca expor o sistema de verdade dado nas Escrituras. Somente depois que muito trabalho foi feito nas Escrituras por teólogos sistemáticos que a Igreja foi capaz de formular seus dogmas. Os credos da Igreja são, em relação ao conteúdo, afirmações igualmente sistemáticas da verdade da Escritura. A diferença em relação à declaração sistemática sobre a Escritura dada pela teologia sistemática é (a) que são declarações breves, limitados da maneira que são às questões mais essenciais; (b) que possuem autoridade, já que foram oficialmente aceitos como padrões por concílios da Igreja.

    Uma vez que estes padrões ou dogmas da Igreja foram aceitos, um teólogo que escreve uma obra de teologia sistemática irá escrevê-la em concordância com a interpretação dada por estes padrões. Interpretar conforme estes padrões não significa que as Escrituras sejam ignoradas. Precisa ser demonstrado incessantemente que os padrões são baseados nas Escrituras. Além disso, o teólogo sistemático precisa ir além dos padrões pra ver se porventura ele consegue encontrar uma formulação mais específica das verdades mencionadas por estes padrões, e se ele consegue encontrar uma formulação das verdades das Escrituras das quais os padrões não falaram.  Assim, ele poderá dar uma pequena contribuição para o progresso da Igreja na verdade da Escritura. Credos precisam ser revisados e complementados de tempos em tempos. Mas é somente depois que a teologia sistemática progrediu além dos credos que os próprios credos podem ser revisados.

    É de extrema importância entender como os credos devem ser revisados. O credo da Igreja Presbiteriana Unida, adotado em 1925, é um exemplo instrutivo de como os credos não devem ser revisados. Este credo se propõe a ser uma revisão da Confissão de Westminster. No entanto, ele transforma muitos ensinamentos específicos e precisos da Escritura, que encontramos na Confissão de Westminster, em generalizações vagas. Esse tipo de revisão de credos é pior do que inútil; é um retrocesso. A Igreja precisa de formulações mais precisas de suas doutrinas contra heresias, à medida que aparecem de maneiras novas e alteradas, e declarações mais completas da verdade bíblica. Warfield chamou a atenção para como isso é verdade em qualquer ciência, que o objetivo não é menos e sim um conhecimento cada vez mais apurado do assunto. Ele diz:

    Em qualquer ciência progressiva, a possibilidade de afastamento da verdade aceita por um pensador sensato se torna cada vez menor e menor e menor, proporcionalmente à medida que a investigação e o estudo resultam no estabelecimento progressivo do número cada vez maior de fatos. O médico que trouxesse a medicina de Galeno de volta hoje não seria mais louco que o teólogo que ressuscitasse a teologia de Clemente de Alexandria.

     O Valor da Teologia Sistemática

    Quando falamos do valor da teologia sistemática, ou, de igual modo, do valor de qualquer outra disciplina teológica, não assumimos uma posição pragmática. A questão do valor não é o primeiro questionamento que devemos fazer. O mais importante é a questão da verdade e da obrigação. Juntar o conteúdo da Escritura em uma unidade sistemática é uma obrigação dada por Deus. É evidente que nós temos que conhecer a revelação que Deus nos dá. Mas nós não conheceríamos a revelação adequadamente se conhecemos somente as diversas partes sem juntar essas partes na relação que uma tem com a outra. É somente como uma parte da totalidade da revelação de Deus a nós que cada parte desta revelação aparece da maneira que deve. Nossas mentes precisam pensar sistematicamente. É com nossas mentes criadas por Deus, que precisa pensar sistematicamente, que precisamos retrabalhar o conteúdo da revelação.

    Todavia, podemos observar que o que é simplesmente nossa tarefa dada por Deus, é, ao mesmo tempo, muito lucrativo para nossa vida espiritual. Warfield disse:

    Nós não possuímos as verdades da religião de maneira abstrata; nós as possuímos somente em suas relações, e nós não conhecemos nenhuma delas nem podemos receber seu efeito completo em nossas vidas… exceto se as conhecemos em sua relação com outras verdades, isto é, sistematicamente. O que nós não conhecemos, neste sentido, sistematicamente, é roubado de metade de seu poder sobre nossa conduta; a menos que estejamos prontos pra argumentar que uma verdade terá efeito sobre nós na proporção em que ela é desconhecida. Sobre isso, é preciso dizer também que quando não conhecemos um conjunto de doutrinas sistematicamente, nós certamente chegamos à concepção errada da natureza de muitos ou poucos de seus elementos; e cogitamos que seja verdadeiro aquilo que um conhecimento mais sistemático demonstraria que é falso, de forma que nossa crença religiosa e, portanto nossa vida religiosa se torna deformada.

    A unidade e o caráter orgânico de nossa personalidade exige que tenhamos um conhecimento unificado como a base de nossa ação. Se não prestarmos atenção para totalidade da verdade bíblica como um sistema, nos tornamos doutrinariamente unilateral e unilateralidade doutrinária está fadada a produzir unilateralidade espiritual. Como seres humanos, somos naturalmente inclinados a sermos unilaterais. Um tende a ser mais intelectual, o outro tende a ser mais emocional e o outro tende a ser mais ativista. Um tende a ser somente profético, o outro somente sacerdote e o outo rei. Nós devemos ser todas essas coisas ao mesmo tempo, em harmonia. Um estudo da teologia sistemática irá nos ajudar a manter e desenvolver nosso equilíbrio espiritual. Impede-nos de prestar atenção somente ao que mais nos atrai por causa de nosso temperamento.

    Além disso, o que é benéfico para o crente individual é também benéfico para o ministro e consequentemente para a igreja como um todo. Alguns às vezes defendem que os ministros não precisam ser treinados em teologia sistemática se eles simplesmente conhecem suas Bíblias. Mas pregadores “treinados na Bíblia” em vez de treinados sistematicamente frequentemente pregam erros. Eles podem ter tantas boas intenções e ser tão fiéis ao evangelho em certos pontos, mas ainda assim frequentemente pregam erros. Existem muitos pregadores “ortodoxos” hoje cujo estudo das Escrituras tem sido tão limitada ao que diz sobre soteriologia que não seriam capazes de proteger o aprisco contra heresias sobre a pessoa de Cristo. Frequentemente consideram noções definitivamente heréticas sobre a pessoa de Cristo, de maneira perfeitamente inconsciente do fato.

    Se levarmos isso um passo adiante, perceberemos que um estudo da teologia sistemática ajudará os homens a pregar teologicamente. Ajudará os homens a proclamarem todo o conselho de Deus. Muitos ministros nunca lidam com a maior parte da riqueza da revelação de Deus ao homem, contida na Escritura. Mas a teologia sistemática ajuda os ministros a pregarem todo o conselho de Deus e com isso fazem com que Deus seja o centro de sua obra.

    A história da Igreja confirma a assertiva de que a pregação centralizada em Deus é de valor supremo para a Igreja de Cristo. Quando o ministério verdadeiramente proclama todo o conselho de Deus, a Igreja floresce espiritualmente. Também ai, é este tipo de pregação abrangente que tem guardado a Igreja do mundanismo. E por outro lado, tem guardado a Igreja de um transcendentalismo prejudicial. A pregação abrangente nos ensina a usar as coisas deste mundo porque são dons de Deus e nos ensina a possuí-las como se não possuíssemos no sentido de que devem ser usados de maneira subordinada ao único propósito supremo do homem, a saber, a glória de Deus.

    É natural esperar que, se a igreja é forte porque seu ministério compreende e prega todo o conselho de Deus, então a igreja será capaz de se proteger da melhor maneira contra falsos ensinos de todo tipo. Cristãos sem doutrina facilmente caem nas mãos dos divulgadores do russelismo, espiritismo, e todas as outras cinquenta e sete variedades de heresias abundantes em nosso país. Cristãos de um texto só simplesmente não têm armas pra se defender contra estas pessoas. Eles poderão ser até capazes de citar muitos textos das Escrituras que falam, por exemplo, do castigo terno, mas o russelita será capaz de citar textos que, da maneira que soam e considerados individualmente, parecem ensinar o aniquilismo. Muitas vezes, estes cristãos de um texto só caem nas mãos da voz do sedutor.

    Nós já indicamos que a melhor defesa apologética será invariavelmente feita por aquele que melhor conhece o sistema de verdade da Escritura. A luta entre o Cristianismo e o anticristianismo é, em tempos modernos, não é uma questão fragmentada. É uma luta de vida e morte entre duas cosmovisões. O ataque anticristão costuma vir até nós na forma de questões históricas ou outros detalhes. Vem até nós na forma de objeção a determinados ensinamentos da Escritura sobre, por exemplo, a criação, etc. Poderá parecer uma simples questão de perguntar quais foram os fatos. Mas por trás deste ataque detalhado está a pressuposição da metafísica não cristã da correlatividade entre Deus e o homem. Aqueles que não são treinados em teologia sistemática ficarão perdidos em como lidar com estes ataques. Ele pode ter muita habilidade para lidar com os ataques no que se refere aos detalhes, mas terá que temer sempre os novos ataques enquanto ele não remover o fundamentoda posição do inimigo.

    Quanto a isso, não devemos nos esquecer de que o ministro tem uma responsabilidade cada vez maior de ser um apologista do Cristianismo. O nível geral da educação está mais alto do que jamais esteve antes. Muitos jovens ouvem da evolução nas escolas de ensino médio e nas faculdades em que seus pais nunca ouviram falar do assunto, exceto como algo longe e distante. Se o ministro quiser ajudar seus jovens, ele precisa ser um bom apologista. E ele não pode ser um bom apologista sem ser um bom teólogo sistemático.

    Para concluir, devemos observar que da mesma forma que o conhecimento compreensivo do sistema da verdade na Escritura é a melhor defesa contra a heresia, também é a melhor defesa na propagação da verdade. Isso é simplesmente o outro lado do que foi dito. É improvável que um exército bem organizado será vencido por um ataque surpresa e, da mesma forma, um exército bem organizado tem uma capacidade maior de atacar o inimigo do que um exército mal organizado. Cada unidade terá o apoio e proteção do exército inteiro enquanto avança para atacar. A moral será melhor. Quando o inimigo vier com um canhão, temos que jogar uma bomba atômica contra ele. Quando o inimigo atacar os fundamentos, temos que ter a capacidade de protegê-los.

    [divider]

    Tradução: Frank Brito
     
  • Odayr Olivetti 1:27 pm on December 25, 2012 Permalink
    Tags: ,   

    Natal ― Milagres 

    Há três milagres no Natal:

    A encarnação do Verbo eterno!

    Deus se humanou, homem real!

    Mostrou amor profundo e terno.

    Ninguém O pôde receber,

    Pela cegueira natural;

    Só O recebe o humano ser

    Nascido de ato divinal.

    O mundo não viu em Jesus

    O Autor de toda a criação.

    Quem creu viu nele a plena Luz,

    Que é Vida e Paz e Salvação!

    Três milagres, pois, aí estão:

    Nasceu o Eterno lá em Belém;

    Só cremos por divina ação;

    E a glória vemos do Sumo Bem!

    Passagens:

    “No principio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus… e o Verbo se fez carne e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade – Jo 1.1,14 a.

     

    “… sem ele nada do que foi feito se fez” – Jo 1.3.

     

    “Veio para o que era seu, e os seus não o receberam. Mas, a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus, a saber, aos que creem no seu nome” – Jo 1.12,13.

     

    “… e vimos a sua glória, glória como do unigênito do Pai” – Jo 1.14 b.

     

     
  • C. S. Lewis 6:16 pm on December 24, 2012 Permalink
    Tags: ,   

    O que significa o Natal para mim 

    Há três coisas que levam o nome de “Natal”. A primeira é a festa religiosa. Ela é importante e obrigatória para os cristãos mas, já que não é do interesse de todos, não vou dizer mais nada sobre ela. A segunda (ela tem conexões histórias com a primeira, mas não precisamos falar disso aqui) é o feriado popular, uma ocasião para confraternização e hospitalidade. Se fosse da minha conta ter uma “opinião” sobre isso, eu diria que aprovo essa confraternização. Mas o que eu aprovo ainda mais é cada um cuidar da sua própria vida. Não vejo razão para ficar dando opiniões sobre como as pessoas devam gastar seu dinheiro e seu tempo com os amigos. É bem provável que elas queiram minha opinião tanto quanto eu quero a delas. Mas a terceira coisa a que se chama “Natal” é, infelizmente, da conta de todo mundo.

    Refiro-me à chantagem comercial. A troca de presentes era apenas um pequeno ingrediente da antiga festividade inglesa. O Sr. Pickwick levou um bacalhau a Dingley Dell [1]; o arrependido Scrooge [2] encomendou um peru para seu secretário; os amantes mandavam presentes de amor; as crianças ganhavam brinquedos e frutas. Mas a idéia de que não apenas todos os amigos mas também todos os conhecidos devam dar presentes uns aos outros, ou pelo menos enviar cartões, é já bem recente e tem sido forçada sobre nós pelos lojistas. Nenhuma destas circunstâncias é, em si, uma razão para condená-la. Eu a condeno nos seguintes termos.

    1. No cômputo geral, a coisa é bem mais dolorosa do que prazerosa. Basta passar a noite de Natal com uma família que tenta seguir a ‘tradição’ (no sentido comercial do termo) para constatar que a coisa toda é um pesadelo. Bem antes do 25 de dezembro as pessoas já estão acabadas ― fisicamente acabadas pelas semanas de luta diária em lojas lotadas, mentalmente acabadas pelo esforço de lembrar todas as pessoas a serem presenteadas e se os presentes se encaixam nos gostos de cada um. Elas não estão dispostas para a confraternização; muito menos (se quisessem) para participar de um ato religioso. Pela cara delas, parece que uma longa doença tomou conta da casa.

    2. Quase tudo o que acontece é involuntário. A regra moderna diz que qualquer pessoa pode forçar você a dar-lhe um presente se ela antes jogar um presente no seu colo. É quase uma chantagem. Quem nunca ouviu o lamento desesperado e injurioso do sujeito que, achando que enfim a chateação toda terminou, de repente recebe um presente inesperado da Sra. Fulana (que mal sabemos quem é) e se vê obrigado a voltar para as tenebrosas lojas para comprar-lhe um presente de volta?

    3. Há coisas que são dadas de presente que nenhum mortal pensaria em comprar para si ― tralhas inúteis e barulhentas que são tidas como ‘novidades’ porque ninguém foi tolo o bastante em adquiri-las. Será que realmente não temos utilidade melhor para os talentos humanos do que gastá-los com essas futilidades?

    4. A chateação. Afinal, em meio à algazarra, ainda temos nossas compras normais e necessárias, e nessa época o trabalho em fazê-las triplica.

    Dizem que essa loucura toda é necessária porque faz bem para a economia. Pois esse é mais um sintoma da condição lunática em que vive nosso país ― na verdade, o mundo todo ―, no qual as pessoas se persuadem mutuamente a comprar coisas. Eu realmente não sei como acabar com isso. Mas será que é meu dever comprar e receber montanhas de porcarias todo Natal só para ajudar os lojistas? Se continuar desse jeito, daqui a pouco eu vou dar dinheiro a eles por nada e contabilizar como caridade. Por nada? Bem, melhor por nada do que por insanidade.

    Notas:

    [1] Samuel Pickwick é o personagem principal de Pickwick Papers, romance de Charles Dickens no qual suas aventuras são narradas. Dingley Dell é o nome de uma fazenda, um dos cenários do romance. (N. do T.)

    [2] Referência ao avarento milionário Ebenezer Scrooge, personagem da obra Um Conto de Natal, de Charles Dickens. (N. do T.)

    [divider]

    Fonte: Publicado originalmente em God in the dock ― Essays on Theology and Ethics (Deus no banco dos réus ― Ensaios sobre Teologia e Ética), 1957.

     
  • R. C. Sproul 5:10 pm on December 24, 2012 Permalink
    Tags: ,   

    A Glória do Natal 

    Na noite que Jesus nasceu algo espetacular aconteceu. As planícies de Belém tornaram-se o teatro para um dos shows mais espetaculares de som e luz na história humana. Todo o céu irrompeu em louvor.

    Lucas nos diz o que aconteceu:

    Naquela mesma região, havia pastores que estavam no campo, à noite, tomando conta do rebanho. E um anjo do Senhor apareceu diante deles, e a glória do Senhor os cercou de resplendor; e ficaram com muito medo. Mas o anjo lhes disse: Não temais, porque vos trago novas de grande alegria para todo o povo; é que hoje, na Cidade de Davi, vos nasceu o Salvador, que é Cristo, o Senhor. E este será o sinal para vós: achareis um menino envolto em panos, deitado em uma manjedoura.

    Então, de repente, uma grande multidão do exército celestial apareceu junto ao anjo, louvando a Deus e dizendo: “Glória a Deus nas maiores alturas, e paz na terra entre os homens a quem ele ama”. (Lucas 2.8-14)

    O visitante angelical estava cercado pela glória de Deus. A glória estava brilhando. Essa glória não pertencia ao anjo. Era a glória de Deus, significando seu modo divino de ser. Foi o esplendor divino que envolveu o mensageiro celestial, um resplendor divino visível.

    Quando os pastores de Belém tremeram de medo, eles foram admoestados pelo anjo: “Não temais, porque vos trago novas de grande alegria para todo o povo; é que hoje, na Cidade de Davi, vos nasceu o Salvador, que é Cristo, o Senhor” (Lucas 2.10-11).

    Todo ser humano anseia por um salvador de algum tipo. Buscamos alguém ou algo que resolverá os nossos problemas, aliviará a nossa dor, ou concederá o objetivo mais ilusório de todos, a felicidade. Desde a procura por sucesso no trabalho à descoberta do parceiro ou amigo perfeito, fazemos a nossa busca.

    Mesmo na preocupação com esportes mostramos uma esperança por um salvador. Quando a temporada de esporte termina com mais perdedores do que vencedores, ouvimos o grito das cidades ao longo de todo o país: “Esperem até o próximo ano!”. Então chega o projeto ou uma nova safra de novatos, e os fãs depositam suas esperanças e sonhos no novo garoto que trará glória ao time. O novato, o novo cliente, a nova máquina, as novidades que chegarão no correio de amanhã ― são todos objetos de esperança; mas esperança que nenhuma criatura pode garantir.

    A explosão de luz que inundou os campos de Belém anunciou o advento de um Salvador capaz de cumprir a tarefa.

    Observamos que o recém-nascido Salvador é também chamado de “Cristo o Senhor”. Aos pastores atônitos esses títulos estavam impregnados de significado. Esse Salvador é o Cristo, o Messias há muito esperado de Israel. Todo judeu lembrava da promessa de Deus que um dia o Messias, o ungido do Senhor, viria para libertar Israel. Esse Messias-Salvador é também Senhor. Ele não somente salvará o seu povo, mas será o Rei deles, seu Soberano.

    O anjo declara que esse Salvador-Messias-Senhor nasceu “para nós” [vos nasceu]. O anúncio divino não é um oráculo de julgamento, mas a declaração de um presente. O Rei recém-nascido nasceu para nós.

    [divider]

    Fonte: Ligonier Ministries
    Tradução: Felipe Sabino de Araújo Neto – 24 de dezembro/2012

     

     
  • Dennis Hollinger 4:26 am on December 7, 2012 Permalink
    Tags: ,   

    Advento — Dia 6 | Lucas 20.41-21.4 

    [box_dark]

    Então Jesus lhes perguntou: “Como dizem que o Cristo é Filho de Davi? O próprio Davi afirma no Livro de Salmos: ‘O Senhor disse ao meu Senhor: Senta-te à minha direita até que eu ponha os teus inimigos como estrado para os teus pés’ Portanto Davi o chama ‘Senhor’. Então, como é que ele pode ser seu filho?”

    Estando todo o povo a ouvi-lo, Jesus disse aos seus discípulos: “Cuidado com os mestres da lei. Eles fazem questão de andar com roupas especiais, e gostam muito de receber saudações nas praças e de ocupar os lugares mais importantes nas sinagogas e os lugares de honra nos banquetes. Eles devoram as casas das viúvas, e, para disfarçar, fazem longas orações. Esses homens serão punidos com maior rigor!”

    Jesus olhou e viu os ricos colocando suas contribuições nas caixas de ofertas. Viu também uma viúva pobre colocar duas pequeninas moedas de cobre e disse: “Afirmo-lhes que esta viúva pobre colocou mais do que todos os outros. Todos esses deram do que lhes sobrava; mas ela, da sua pobreza, deu tudo o que possuía para viver”.

    [/box_dark]

    Presentes são uma parte regular da tradição do Natal. Reconhecemos o presente que Deus nos deu em seu Filho imitando essa ação para com os outros. É uma expressão concreta de nossa fé.

    Todavia, mesmo nos dias de Jesus, o ato de dar tinha expectativas pecaminosas ligadas a ele que ainda encontramos hoje: dar esperando algo em troca, ou dar o maior presente possível sem de fato sentir os efeitos disso. Os ricos nesta história particular deram grandes presentes, mas presentes que em última análise não exigiram fé. Em contraste, Jesus observa o presente pequeno e silencioso de uma mulher pobre — uma oferta que era pequena comparada às grandes quantidades sendo dadas pelos ricos, mas imensa aos olhos de Deus.

    A despeito de sua pobreza e toda lógica mundana, a mulher deu quando não tinha dinheiro de sobra. Ela deu confiando num Deus que provê e protege. Os ricos deram sabendo que tinham outras riquezas. Não é que os presentes eram ruins, mas seus presentes não refletiam uma confiança em Deus.

    Durante esse período do Advento, vejamos que os nossos presentes — grandes e pequenos, e não apenas monetários — sejam dados em amor, devoção e confiança em nosso Deus que deixou de lado sua glória para nos resgatar por meio do presente da Encarnação.

    [divider]

    Tradução: Felipe Sabino de Araújo Neto – dezembro/2012

     
c
compose new post
j
next post/next comment
k
previous post/previous comment
r
reply
e
edit
o
show/hide comments
t
go to top
l
go to login
h
show/hide help
shift + esc
cancel